A Era da Humanidade: reflexões para a história do Direito Internacional

Henrique Weil Afonso

Resumo


O objetivo deste trabalho é analisar certas controvérsias acerca da hipótese do colapso climático por causas antropogênicas mediante o auxílio de abordagens críticas da história do Direito Internacional. Para sua concretização, optou-se pelo estudo descritivo e analítico, por meio de pesquisa bibliográfica e documental. Nos últimos anos, o possível ingresso da humanidade em uma nova era geológica designada de Antropoceno recebe considerável atenção por parte de historiadores. A ideia segundo a qual, a partir da Revolução Industrial, a humanidade age em uma escala equivalente a uma força telúrica, vem repercutindo na seara historiográfica e torna-se uma temática de apelo global. Em primeiro lugar, porque o Antropoceno suscita problemas referentes à formação histórica da sociedade internacional. Empregando um viés anacrônico, o debate metodológico despertado pela literatura pós-colonial defende a pertinência de temas como colonialismo e imperialismo para a compreensão da agenda internacional do presente. Por esta razão, revela-se frutífera ferramenta analítica para a compreensão das formações discursivas do Antropoceno. Em segundo lugar, os efeitos estimados da atividade antropogênica têm o potencial de desestabilizar as condições de construção do saber histórico sobre os quais a teoria do Direito Internacional encontra sustentação, aspecto este que será problematizado à luz das limitações das intepretações contextualistas da história. Finalmente, o ideal de progresso que confere sentido a variadas formações históricas influentes no Direito Internacional poderá ser revisitado a partir da premissa segundo a qual, no Antropoceno, a teleologia histórica necessita coexistir com horizontes de expectativas menos favoráveis à realização das promessas da modernidade.

Palavras-chave


História do Direito Internacional. Anacronismo. Colapso climático. Antropoceno.

Texto completo:

PDF

Referências


AFONSO, Henrique Weil. A reconstrução histórica da diversidade no direito internacional. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.

AL ATTAR, Mohsen; MILLER, Rosalie. Towards an emancipatory international law: the bolivarian reconstruction. Third World Quarterly, Abingdon, v. 31, n. 3, p. 347-363, 2010.

ANGHIE, Antony. Imperialism, sovereignty and the making of international law. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

ALLEN, Myles et al. Climate change 2014 synthesis report. Approved summary for policymakers. International governmental synthesis report. Fifth assessment synthesis report. 2014. Disponível em: http://www.ipcc.ch/report/ar5/wg2/.Acesso em: 03 dez. 2015.

BANCO MUNDIAL. The 2016 edition of World Development Indicators is out: three features you don’t want to miss. Disponível em: http://blogs.worldbank.org/ opendata/2016-edition-world-development-indicatorsout-three-features-you-won-t-want-miss. Acesso em: 18 maio 2016.

BARROS-PLATIAU, Ana Flávia et al. Correndo para o mar no antropoceno: a complexidade da governança dos oceanos e a estratégia brasileira de gestão dos recursos marinhos. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 12, n. 1, p. 149-168, 2015.

BONNEUIL, Christophe. The geological turn: narratives of the Anthropocene. In: HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, François (Eds.). The anthropocene and the global environmental crisis: rethinking modernity in a new epoch. New York: Routledge, 2015. p. 17-31.

CHAKRABARTY, Dipesh. Postcolonial studies and the challenge of climate change. New Literary History, Baltimore, v. 43, n.1, p. 1-18, 2012.

CHAKRABARTY, Dipesh. The climate of history: four theses. Critical Inquiry, Chicago, v. 35, n. 2, p. 197-222, 2009.

COLLINGWOOD, Robin George. A história como representação da experiência passada. In: GARDINER, Patrick. Teorias da história. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.

CRUTZEN, Paul; STEFFEN, Will; MCNEILL, John. The anthropocene: are humans now overwhelming the great forces of nature? Ambio, Estocolmo, v. 36, n. 8, p. 614-621, 2007.

CRUTZEN, Paul; STOERMER, Eugene. The “Anthropocene”. Global Change Newsletter (IGBP), n. 41, p. 17-18, 2000.

DELOUGHREY, Elizabeth; HANDLEY, George. Introduction: Toward an Aesthetics of the Earth. In: DELOUGHREY, Elizabeth; HANDLEY, George (Eds.). Postcolonial ecologies: literatures of the environment. Oxford: Oxford University Press, 2011. p. 3-39.

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.

FALK, Richard. International law and the future. In: FALK, Richard; RAJAGOPAL, Balakrishnan; STEVENS, Jacqueline (Eds.). International law and the third world: reshaping justice. London: Routledge-Cavendish, 2008. p. 23-34.

FASOLT, Constantin. The limits of history. Chicago: University of Chicago Press, 2004.

FRANCO, Fernanda Cristina de Oliveira. Oportunidades e desafios das TWAIL no contexto latino-americano a partir das perspectivas dos povos indígenas ao direito internacional. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 12, n. 2, p. 226-244, 2015.

GALINDO, George Rodrigo Bandeira. Para que serve a história do direito internacional? Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 12, n. 1, p. 339-354, 2015.

GATHII, James Thou. International law and eurocentricity. European Journal of International Law, Florença, v. 9, n. 1, p. 184-211, 1998.

GREAR, Anna. Deconstructing Anthropos: a critical reflection on ‘anthropocentric’ law and anthropocene ‘humanity”. Law and Critique, Dordrecht, v. 26, n. 3, p. 225-249, 2015.

GREAR, Anna. Editorial. The discourse of ‘biocultural’ rights and the search of new epistemic parameters: moving beyond essentialisms and old certainties in an age of Anthropocene complexity? Journal of Human Rights and the Environment, v. 6, n. 1, p. 1-6, 2015.

GREGORY, Derek. The colonial present. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

GROSS, Leo. The peace of westphalia, 1648-1948. American Journal of International Law, Washington, v. 42, n. 1, p. 21-40, 1948.

GROVOGUI, Siba N’Zatioula. Sovereigns, quase sovereigns, and africans. Minneapolis: Minnesota University Press, 1996.

HAMILTON, Clive. Human destiny in the Anthropocene. In: HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, François (Eds.). The anthropocene and the global environmental crisis: rethinking modernity in a new epoch. New York: Routledge, 2015. p. 32-43.

HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, François. Thinking the Anthropocene. In: HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, Françoi. The anthropocene and the global environmental crisis: rethinking modernity in a new epoch. New York: Routledge, 2015. p. 1-13.

HERDER, Johann Gottfried. Ideias para a filosofia da história da humanidade. In: GARDINER, Patrick. Teorias da história. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.

HUNTER, Ian. Global justice and regional metaphisics: on the critical history of the law of nature and nations. In: DORSETT, Shaunnagh; HUNTER, Ian (Eds.). Law and politics in british colonial thought: transpositions of empire. New York: Palgrave Macmillan, 2010. p. 11-30.

INTERNATIONAL LAW ASSOCIATION. Final report of the international committee on baselines under the international law of the sea. 75th Conference. Sofia, 2012. Disponível em: www. ila-hq.org/en/committees/index.cfm/cid/1028. Acesso em: 25 maio 2016.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE. IPCC Overview. 1990. Disponível em: http://www.ipcc.ch/publications_and_data/publications_and_data_reports.shtml#1. Acesso em: 03 dez. 2015.

JAY, Martin. Historical explanation and the event: reflection on the limits of contextualization. New Literary History, Baltimore, v. 42, n. 4, p. 557-571, 2011.

JETNIL-KIJINER, Kathy. Dear metafele peinam. 2014. Disponível em: https://jkijiner.wordpress.com/2014/09/24/united-nations-climate-summitopening-ceremony-my-poem-to-my-daughter/. Acesso em: 10 jan. 2016.

JOHNS, Fleur; JOYCE, Richard; PAHUJA, Sundhya. Introduction. In: JOHNS, Fleur; JOYCE, Richard; PAHUJA, Sundhya (Eds.). Events: the force of international law. London: Routledge, 2011. p. 1-17.

KALMO, Hent; SKINNER, Quentin. Introduction: a concept in fragments. In: KALMO, Hent; SKINNER, Quentin (Eds.). Sovereignty in fragments: the past, present and future of a contested concept. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. p. 1-25.

KIRSCH, Heitor Marcos; FILIPPI, Eduardo Ernesto. A dimensão ambiental do desenvolvimento: implicações para além do seu gerenciamento técnico-administrativo em um contexto de mudança climática. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 9, n. 3, p. 29-44, 2012.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos modernos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

KOSKENNIEMI, Martti. Victoria and us: thoughts on critical histories of international law. Zeitschrift des MaxPlanck-Instituts für europäische Rechtsgeschichte, v. 22, p. 119138, 2014.

KOSKENNIEMI, Martti. Histories of international law: significance and problems for a critical view. Temple International and Comparative Law Journal, Philadelphia, v. 27, n. 2, p. 215-240, 2013.

KOSKENNIEMI, Martti. Law, teleology and international relations: an essay in counterdisciplinarity. International Relations, Aberystwyth, v. 26, n. 3, p. 3-34, 2012.

KOSKENNIEMI, Martti. Histories of international law: dealing with eurocentrism. Zeitschrift des MaxPlanck-Instituts für europäische Rechtsgeschichte, v. 19, p. 152176, 2011.

KOSKENNIEMI, Martti. The gentle civilizer of nations: the rise and fall of international law 1870-1960. Cam bridge: Cambridge University Press, 2001.

LATOUR, Bruno. Telling friends from foes in the time of the Anthropocene. In: HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, François (Eds.). The anthropocene and the global environmental crisis: rethinking modernity in a new epoch. New York: Routledge, 2015. p. 145-155.

LEWIS, Simon; MASLIN, Mark. Defining the Anthropocene. Nature, Londres, v. 519, p. 171-180, 2015.

MACEDO, Paulo Emílio Vauthier Borges de. O mito de Francisco de Vitória: defensor dos índios ou patriota espanhol? Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 9, n. 1, p. 1-13, 2012.

MALM, Andreas; HORNBORG, Alf. The geology of mankind? a critique of the anthropocene narrative. The Anthropocene Review, v. 1, n. 1, p. 62-69, 2014.

MARQUES, Clarissa. When the future becomes the present of the environmental crisis: the jurisprudence of the Brazilian supreme court and the future dimension of the right to the environment. Revista de Direito da Cidade, Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, p. 704-728, 2016.

MUTUA, Makau. What is TWAIL? proceedings of the 94th annual meeting of the american society of international law. 2000. Disponível em: http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract-id=1533471. Acesso em: 05 abr. 2012.

OAKLEY, Francis. Politics and eternity: studies in the history of medieval and early-modern political thought. Brill: Leiden, 1999.

OKAFOR, Obiora Chinedu. Newness, imperialism and international legal reform in Our time: a TWAIL perspective. Osgoode Hall Law Journal, Toronto, v. 43, n. 1, p. 171-191, 2005.

OPPENHEIM, Lassa. The science of international law: its task and method. American Journal of International Law, Washington, v. 2, n. 2, p. 313-356, 1908.

ORESKES, Naomi. The scientific consensus on climate change: how do we know we’re not wrong? In: DIMENTO, Joseph F. C.; DOUGHMAN, Pamela (Eds). Climate change: what it means for us, our children, and our grandchildren. Cambridge: The MIT Press, 2007. p. 65-100.

ORFORD, Anne. The past as law or history? the relevance of imperialism for modern international law. IILJ Working Paper 2012. Disponível em: http://www.iilj.org/publications/documents/IILJ20122OrfordFINALrevisedtoreflectupdatededitors.pdf. Acesso em: 30 nov. 2014.

OSOFSKY, Hari M. A right to frozen water? the institutional spaces for supranational climate change petitions. In: MILLER, Russell A.; BRATSPIES, Rebecca M. (Eds.). Progress in international law. Leiden: Martinus Nujhoff Publishers, 2008. p. 749-770.

PLUMWOOD, Val. Decolonizing relations with nature. In: ADAMS, William; MULLIGAN, Martin (Eds.). Decolonizing nature: strategies for conservation in a postcolonial era. London: Earthscan Publications, 2003. p. 51-78.

RAJAGOPAL, Balakrishnan. International law from below: development, social movements and third world resistance. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

ROBERTS, J. Timmons; PARKS, Bradley C. A climate of injustice: global inequality, north-south politics, and climate policy. Cambridge: The MIT Press, 2007.

SKINNER, Quentin. Meaning and Understanding in the History of Ideas. History and Theory, Middletown, v. 8, n. 1, p. 3-53, 1969.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

STENGERS, Isabelle. Accepting the reality of Gaia: a fundamental shift? In: HAMILTON, Clive; BONNEUIL, Christophe; GEMENNE, François (Eds.). The anthropocene and the global environmental crisis: rethinking modernity in a new epoch. New York: Routledge, 2015. p. 134-144.

TRÜPER, Henning; CHAKRABARTY, Dipesh; SUBRAHMANYAM, Sanjay. Introduction: Teleology and history: nineteenth-century fortunes of an enlightenment project. In: TRÜPER, Henning; CHAKRABARTY, Dipesh; SUBRAHMANYAM, Sanjay (Eds.). Historical teleologies in the modern world. Londres: Bloomsbury, 2015. p. 3-24

VIDAS, Davor. Sea-level rise and international law: at the convergence of two epochs. Climate Law, Leiden, v. 4, n. 1, p. 70-84, 2014.

VIDAS, Davor; ZALASIEWICZ, Jan; WILLIAMS, Mark. What is the Anthropocene: and Why is it relevant for International Law? Yearbook of International Environmental Law, Oxford, v. 25, n. 1, p. 3-23, 2015.




DOI: http://dx.doi.org/10.5102/rdi/bjil.v13i3.4222

ISSN 2236-997X (impresso) - ISSN 2237-1036 (on-line)

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia