Correlação entre introdução precoce de telas e transtorno do espectro autista em crianças do Distrito Federal
Resumo
Este estudo investigou a possível relação entre a introdução precoce de telas e
o desenvolvimento de sintomas do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças
residentes no Distrito Federal, integrando levantamento primário de dados com revisão
sistemática da literatura recente. A pesquisa de campo, de caráter observacional,
transversal e descritivo, foi realizada por meio de questionário eletrônico aplicado a
pais e responsáveis, abrangendo variáveis sociodemográficas, clínicas, perfil
sintomatológico e padrões de uso de dispositivos eletrônicos. Foram recebidas 51
respostas, das quais 40 compuseram a amostra final após aplicação dos critérios de
inclusão e exclusão. A média de idade das crianças foi de 6,2 anos, predominando o
sexo masculino (65,0%), com distribuição equilibrada entre educação infantil e ensino
fundamental. Mais da metade iniciou o uso de telas antes de 1 ano de idade (55,0%),
sendo a televisão (90,0%) e o smartphone (80,0%) os dispositivos mais utilizados, com
predomínio de conteúdos de entretenimento (82,5%) e educativos (72,5%). O tempo
diário variou, com 30,0% usando entre 1 e 2 horas e 27,5% acima de 3 horas.
Observou-se que tempos diários mais elevados (≥3 horas) associaram-se à maior
substituição de atividades de brincar/socialização por telas (54,5% versus 24,1% nos
grupos com ≤2–3 horas), embora não tenha havido diferença relevante na
irritabilidade à retirada. No perfil clínico, 47,5% faziam uso contínuo de medicamentos,
principalmente antipsicóticos como risperidona, e 40,0% apresentavam comorbidades,
destacando-se TDAH, distúrbios do sono e dificuldades alimentares. A gravidade do
TEA, classificada pelo grau de suporte do DSM-5, concentrou-se nos Graus 1 (50,0%) e
2 (37,5%), sem correlação significativa com idade de introdução ou tempo diário de
tela. Apesar da ausência de associação clara entre exposição a telas e gravidade clínica,
identificaram-se impactos funcionais relevantes, como a redução de interações sociais
e de atividades ao ar livre, convergindo com evidências que apontam efeitos adversos
do uso excessivo e não mediado de mídia digital no desenvolvimento infantil. As
recomendações de sociedades científicas, como evitar telas para menores de 2 anos e
limitar seu uso a 1 hora/dia na pré-escola, contrastam com os padrões encontrados na
amostra, evidenciando a necessidade de orientação e mediação ativa por parte dos
cuidadores. Entre as limitações do estudo, destacam-se o tamanho reduzido da
amostra, a natureza transversal e a dependência de autorrelato, que limitam
inferências causais. Os achados, contudo, fornecem subsídios para políticas públicas e
práticas clínicas voltadas à promoção de um uso mais seguro e equilibrado da
tecnologia por crianças com TEA, enfatizando não apenas a quantidade, mas também a
qualidade e o contexto de uso de telas.
Palavras-chave
Texto completo:
PDFDOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10865
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