Tecendo diálogos contra o preconceito: uma análise sobre o racismo e a intolerância religiosa na sociedade brasileira

João Guilherme Bittencourt Duarte Coelho, Luana Elayne Cunha de Souza

Resumo


O presente trabalho propõe-se a investigar as experiências de discriminação vivenciadas por adeptos de religiões de matriz africana no Brasil. A importância da pesquisa surge da urgência de compreender os impactos psicossociais do racismo religioso, já que essas religiões, historicamente marginalizadas, continuam sendo alvos de violências simbólicas e materiais, apesar da laicidade constitucional do Estado brasileiro. O aumento do número de denúncias e agressões dirigidas aos praticantes dessas religiões, que constam nos relatórios recentes, aponta a persistência de um racismo estrutural na sociedade brasileira, que associam negativamente as religiões afro-brasileiras a práticas pejorativas. O objetivo geral desta pesquisa foi compreender as experiências de discriminação vivenciadas por praticantes de religiões afro-brasileiras. O estudo seguiu uma abordagem qualitativa, alinhada aos pressupostos da psicologia social crítica. Participaram da pesquisa dez pessoas, adeptos de religiões de matriz africana (umbanda, candomblé, quimbanda e omoloko), com idades entre 22 a 53 anos. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com 16 questões abertas, cujos conteúdos foram analisados a partir da técnica de análise de conteúdo de Bardin, contemplando as etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados. Os cinco eixos temáticos dos resultados foram criadas a partir dos objetivos específicos, que foram: identificar os contextos sociais em que ocorrem tais experiências; descrever as formas pelas quais o racismo religioso se manifesta; compreender os mecanismos de enfrentamento utilizados pelos indivíduos e analisar as consequências psicossociais advindas dessas vivências. Nos resultados, foi identificado que adeptos das religiões de matriz africana no DF vivenciam discriminação em diferentes contextos, sendo o ambiente familiar o mais recorrente, com comentários depreciativos e desvalorização das práticas religiosas. No trabalho, as manifestações são mais veladas, ocorrendo por meio de olhares, questionamentos excessivos ou silenciamento sobre a religiosidade. Em espaços públicos, a discriminação surge em olhares de reprovação, expressões como “Deus me livre” e estereótipos que associam as práticas ao “mal”. Os participantes relataram que o racismo religioso está ligado à racialização e a demonização dessas religiões, herança do período colonial, e se expressa tanto na restrição de espaços quanto na imposição de justificativas sobre suas práticas. Essa imposição, muitas vezes traz sentimentos de angústia e revolta e as formas de enfrentamento utilizadas são a resistência cultural, o apoio comunitário e a própria espiritualidade. Apesar disso, a religião é percebida pelos praticantes como eixo fundamental de vida, fonte de pertencimento, resistência e identidade cultural, ainda que permeada por desafios para existir e expressar sua fé livremente na sociedade. Diante desses resultados, o presente trabalho visa contribuir para o campo da Psicologia e das Ciências Sociais, oferecendo formas de pensar o enfrentamento do racismo religioso, bem como para a valorização das expressões religiosas de matriz africana enquanto patrimônio cultural, histórico e civilizatório. Dessa forma, ouvir as experiências de discriminação desses sujeitos e visibilizar suas vozes constitui um passo fundamental na construção de estratégias de enfrentamento e viabilização do movimento religioso. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de caráter interdisciplinar e antirracista, que busca visibilizar vozes e narrativas frequentemente silenciadas na sociedade.

Palavras-chave


intolerância religiosa; racismo ; religiões de matriz africana; vivências de preconceito; religiosidades brasileiras.

Texto completo:

PDF


DOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10811

Apontamentos

  • Não há apontamentos.

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia