Estratégias de enfrentamento do racismo em homens negros a partir de suas experiências como “únicos” em seus contextos de pertença

Vitor Carvalho dos Santos, Daniela Borges Lima de Souza

Resumo


O estudo teve como objetivo compreender as estratégias de enfrentamento do racismo adotadas por homens negros a partir de suas experiências como “únicos” em seus contextos de pertença, analisando os impactos dessas vivências nas subjetividades, relações interpessoais e trajetórias profissionais. Também buscou identificar os significados atribuídos a essas experiências, considerando o racismo estrutural, as microviolências e a sub-representação em espaços institucionais. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, fundamentada na epistemologia qualitativa, priorizando a subjetividade e os contextos sociais. Foi realizada no Distrito Federal com quatro homens negros, entre 18 e 50 anos, todos com ensino superior e inserção no mercado de trabalho formal. A seleção foi por conveniência, e os dados foram obtidos por entrevistas semiestruturadas, presenciais e remotas, gravadas e transcritas mediante consentimento. A análise seguiu a técnica de análise de narrativas (Schütze, 2016; Riemann, 2003), permitindo identificar estruturas processuais e teorias subjetivas formuladas pelos participantes. Os resultados mostraram que a condição de ser o “único” homem negro em determinados espaços é marcada por sentimentos ambivalentes de conquista e isolamento, exigindo vigilância constante e esforço redobrado para atender expectativas desiguais. As microviolências microassaltos, microinsultos e microinvalidações apareceram como elemento central, afetando autoestima, saúde mental e senso de pertencimento. As estratégias de enfrentamento incluíram ações individuais, como autocuidado, terapia, qualificação profissional e verbalização das experiências, e ações coletivas, como participação em redes de apoio, atuação em coletivos negros e ocupação insurgente de espaços de poder. Essas práticas foram interpretadas como mecanismos de resistência e afirmação identitária, dialogando com conceitos como “quilombos contemporâneos” (Nascimento, 2016), “insurgência negra” (Carneiro, 2023) e talking back (hooks, 1995). Observou-se que a ascensão social, embora seja conquista, frequentemente vem acompanhada de responsabilidades coletivas e sentimentos de solidão, confirmando tensões descritas na literatura sobre mobilidade negra. Uma contribuição relevante desta pesquisa é evidenciar como o racismo ainda impera de forma alarmante sobre as vidas de homens negros. Apesar de a abolição da escravatura ter ocorrido há 137 anos, seus reflexos permanecem no cotidiano desse grupo. Ainda hoje, muitas famílias negras vivenciam a experiência inédita de ter um integrante concluindo o ensino superior, ocupando posição de destaque ou tornando-se referência para os mais próximos. Soma-se a isso o peso de ser o único representante negro em determinados espaços, intensificando a sensação de isolamento. Nesse contexto, o conceito de tokenismo descreve com precisão o fardo de ocupar um espaço em que a presença negra é numérica e simbolicamente pouco expressiva.Reconhece-se que as limitações amostra reduzida, perfil homogêneo e recorte geográfico restringem a generalização dos achados. Recomenda-se ampliar a diversidade de perfis e contextos em futuras investigações. Em termos práticos, o estudo contribui para compreender como homens negros constroem, no cotidiano, estratégias de resistência que fortalecem pertencimento, autoestima e presença insurgente em espaços historicamente excludentes.

Palavras-chave


racismo; homens negros; masculinidades negras; microviolências

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DOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10791

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