Os desafios diagnósticos e o tratamento da tuberculose vertebral no Distrito Federal

João Pedro Mendes Gontijo, Gabriel Machado de Castro

Resumo


A tuberculose (TB) persiste como grave ameaça global, com 10,6 milhões de novos casos no mundo no mundo em 2023. No Brasil, a incidência aumentou para 40,6 casos por 100 mil habitantes, refletindo atrasos no diagnóstico pós-pandemia. A TB extrapulmonar (10-15% dos casos) afeta principalmente imunossuprimidos, sendo a forma vertebral (10% das extrapulmonares) a mais relevante por seu impacto funcional. Seu diagnóstico é desafiador devido à apresentação insidiosa e exames inespecíficos, exigindo avaliação clínico-radiológica integrada. O tratamento padrão dura 12 meses, mas há controvérsias sobre duração e indicação cirúrgica. Este estudo qualitativo analisou o conhecimento de ortopedistas do Distrito Federal (DF) sobre tuberculose vertebral, investigando diagnóstico, tratamento e desafios nos sistemas público e privado. Foram realizadas 38 entrevistas online via Google Meet, com médicos selecionados por conveniência. Utilizou-se um roteiro semiestruturado com 21 perguntas, garantindo anonimato e sigilo. O estudo buscou entender diferenças assistenciais, critérios diagnósticos e terapêuticos, visando contribuir para melhorias no manejo da doença, ao explorar barreiras diagnósticas, critérios terapêuticos e organização da rede de saúde. Os achados evidenciam que, embora a maioria reconheça a TB vertebral como um diagnóstico diferencial, o conhecimento aplicável à prática clínica mostrou-se desigual, a apresentação típica foi frequentemente descrita de forma incompleta, e o DF nem sempre foi percebido como área de elevada carga de TB. Em contrapartida, os diagnósticos diferenciais mais prevalentes são prontamente lembrados, o que ajuda a explicar por que a hipótese de TB nem sempre é considerada nas fases iniciais. No campo dos exames complementares, grandes hospitais privados e em centros públicos de alta complexidade, a confirmação ocorre rapidamente, enquanto unidades periféricas dependem de regulação para ressonância magnética (RNM) e enfrentam limitações operacionais para biópsia, postergando o diagnóstico. O manejo farmacológico foi descrito com precisão por um subconjunto de profissionais, ao passo que parte dos entrevistados abreviou indevidamente a duração do tratamento ou não discriminou as fases intensiva e de manutenção. Quanto à abordagem cirúrgica, prevalece a indicação de descompressão e artrodese em casos de instabilidade e/ou déficit neurológico, embora alguns entrevistados não dominem os critérios operatórios. Por fim, constatou-se ausência de protocolo distrital público que normatize suspeição, diagnóstico e tratamento, com a linha de cuidado funcionando por redes informais e centros de referência. Conclui-se que a qualificação da atenção à TB vertebral no DF exige três frentes integradas: elaboração e difusão de fluxograma distrital específico; ampliação do acesso a RNM e biópsia guiada fora da região central de saúde; e melhor capacitação médica com potencial para reduzir atrasos, uniformizar condutas e prevenir sequelas neurológicas e deformidades estruturais.

Palavras-chave


tuberculose da coluna vertebral; diagnóstico diferencial; ortopedistas; determinantes sociais da saúde.

Texto completo:

PDF


DOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10896

Apontamentos

  • Não há apontamentos.

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia