Processos subjetivos da conciliação da maternidade com a graduação mediante a instituição de creche em uma Universidade Federal: um estudo de caso
Resumo
Esta pesquisa, fundamentada no tripé teórico-metodológico-epistemológico da Teoria da Subjetividade, do método construtivo-interpretativo e da Epistemologia Qualitativa de González Rey, teve como objetivo geral compreender, por meio de um estudo de caso com uma participante, processos subjetivos relacionados à conciliação da maternidade com a graduação mediante a instituição de creche em uma universidade federal. Dessa forma, os objetivos específicos foram: 1) entender, em termos da subjetividade individual da participante, os sentidos subjetivos e as configurações subjetivas envolvidos na conciliação da maternidade com a graduação, 2) analisar a participação, nesses processos subjetivos individuais, da instituição de creche na universidade federal em que a participante estuda, 3) pensar as subjetividades sociais dos diferentes contextos de que ela faz parte, e 4) entender como se articulam essas subjetividades sociais e sua subjetividade individual. A participante foi uma mãe universitária que iniciou seu curso antes da maternidade e que, no decorrer do período de realização da investigação, estava com 22 anos, enquanto seu filho tinha 2 anos. Foram realizados três encontros virtuais pelo Google Meet, em que os instrumentos utilizados para favorecer a expressão múltipla da participante foram a dinâmica conversacional, um indutor audiovisual (o vídeo, presente no YouTube, “Diálogos: Pesquisa aborda dificuldades de ser mãe universitária”) e o complemento de frases. A construção e a análise da informação permitiram pensar sentidos subjetivos e configurações subjetivas, no que tange à subjetividade individual da participante, marcados por experiências contraditórias entre cuidado, hiper-responsabilidade, solidão e não-pertencimento. Entendeu-se que tais experiências eram mobilizadas e alimentadas, em parte, por uma série de desafios subjetivamente configurados no espaço social da universidade enquanto instituição, como, por exemplo, na naturalização da falta de políticas de informação sobre direitos e da ausência de espaços adequados para amamentação. Ainda, entendeu-se que tais experiências eram mobilizadas e alimentadas por uma série de questões presentes nas subjetividades sociais dos demais contextos da participante, como, por exemplo, na naturalização da sobrecarga e do sacrifício supostamente inerentes à maternidade. Assim, a permanência da participante na universidade, mesmo com a abertura da creche, não se sustentou devido à estrutura formal da instituição, mas a uma rede de apoio composta por professoras, colegas e amigas (notadamente mulheres que também eram mães) cujas iniciativas individuais ofereceram suporte ocasional em um cotidiano frequentemente hostil – que era vivido pela participante como demandante da improvisação constante de estratégias para conciliar as demandas acadêmicas e maternas. Concluiu-se que, diante da inexistência ou ineficácia de políticas públicas, a responsabilidade pela continuidade dos estudos recaiu completamente sobre a participante, que, de forma criativa, apesar das ambiguidades, desenvolveu modos próprios de manter seu pertencimento à vida acadêmica mesmo em condições extremas. Por fim, considera-se que o ensino superior, no que envolve a maternidade, é permeado por uma lógica excludente, deslocando para o indivíduo a resolução de questões e de problemas que deveriam ser abordados institucionalmente e coletivamente.
Palavras-chave
subjetividade; maternidade; universidade.
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PDFDOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10786
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